PARTE
VI
E
assim, graças ao vulto, o rapaz conseguiu sair do poço.
Foi
então. O vulto arrancou os panos que cobriam seu corpo. Era um esqueleto. O
filho caçula do rei cego levou um susto.
–
Não tenha medo – disse o esqueleto. – Graças a você minhas dívidas foram pagas
e eu pude ser enterrado.
Se
quiser, posso levá-lo agora, neste instante, até o reino de seu pai.
–
Mas o reino fica muito longe daqui! – exclamou o jovem.
–
Confie em mim. Basta você se agarrar nas minhas costas.
Desconfiado,
o príncipe caçula examinou o esqueleto. Perguntou:
–
Você é o morto ou é a morte?
– Eu
sou o morto agradecido! – revelou o esqueleto com seu sorriso cheio de ossos.
O
rapaz respirou fundo, agarrou firme nas costas do esqueleto e fechou os olhos.
O
esqueleto levantou vôo mergulhando num espaço incompreensível.
A
viagem durou pouco tempo. Logo, os dois já estavam aterrissando nas terras
distantes do rei cego.
O
moço agradeceu, despediu-se do esqueleto e saiu andando.
Estava
magro, barbudo e esfarrapado, por isso ninguém o reconheceu.
Chegando
ao castelo, avistou o cavalo prateado passeando ali perto, solto, no alto do
morro. Perguntou que cavalo era aquele.
–
Nesse ninguém monta – disseram as pessoas.
A
figura magra e barbuda pulou a cerca, foi até o morro, chamou o cavalo e
montou.
A
notícia logo chegou aos ouvidos do rei.
– Se
o barbudo montou no cavalo, talvez seja capaz de tirar a espada de ouro da
bainha – disseram todos.
O
desconhecido esfarrapado foi convidado a visitar o palácio.
Trouxeram
a espada de ouro.
A
figura magra e barbuda tirou a espada da bainha com a maior facilidade.
O
espanto era geral.
– Se
o barbudo montou no cavalo e desembainhou a espada de ouro, talvez seja capaz
de abrir a garrafa com o remédio do rei – disseram todos.
Trouxeram
o vidro mas o desconhecido disse:
– Só
abro o remédio no quarto do rei.
A
figura magra e barbuda foi levada até lá. O rei estava deitado na cama. O
esfarrapado então tirou a tampa da garrafa e, com cuidado, passou o líquido nos
olhos do rei.
Foi
um milagre.
Os
olhos do rei se abriram e brilharam. Em seguida, o velho examinou a figura
magra e barbuda e, espantado, gritou:
–
Filho!
Nesse
instante, a moça muda apareceu no quarto acompanhando a rainha.
Ao
ver o esfarrapado, simplesmente voltou a falar:
–
Ele voltou!
Então
a moça contou tudo o que havia acontecido. Falou do país do
Quem-vai-lá-não-volta, do gigante e tudo o mais.
No
fim, os irmãos traidores foram trancados na prisão.
O
príncipe caçula casou com a moça.
O
rei, que agora tudo via, mandou realizar a maior festa que jamais se viu até os
dias de hoje.
Eu
também estive lá
E
trouxe até um docinho
Mas
confesso minha gente
Comi
tudo no caminho!
Fonte:
Azevedo, Ricardo. Histórias que o povo conta: textos de tradição popular. São
Paulo: Ática, 2002. (Coleção literatura em minha casa. v.5)
https://nuhtaradahab.wordpress.com/2012/05/16/ricardo-azevedo-historias-que-o-povo-conta-conto-de-encantamento-o-rei-que-ficou-cego/
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